Crônicas do chão, escritas roubadas
DOI:
https://doi.org/10.47879/ed.ep.202500187Palavras-chave:
crônicas, racismo do Estado, violência institucional, resistência, saúde públicaResumo
Este livro apresenta fragmentos de uma pesquisa de mestrado concluída em 2017, sob o título: “Cuidado menor: o cuidado como máquina de guerra, poder e resistência nas práticas do cuidado em saúde”. Foi gestado no chão das unidades de saúde, no barro das favelas, no silêncio tenso dos corredores hospitalares. Ele não é sobre casos e “causos”; ele é o próprio corpo das histórias, traduzido em palavra viva.
“Crônicas do Chão, Escritas Roubadas” é um ato de insubordinação. É o testemunho de mulheres que se aventuram na escrita e acionam dois lados: o da enfermeira que, na urgência do cuidado, aprendeu a “roubar” insumos para “roubar” vidas da indiferença; e o da pesquisadora que, na ousadia em pesquisar, e de se identificar com as histórias que se deparava, aprendeu a “roubar” histórias do anonimato para devolvê-las ao mundo como denúncia e reivindicação por um lugar no mundo.
Este escrito é um relato visceral que entrelaça as vivências de uma enfermeira pesquisadora na periferia do sistema de saúde. Através de crônicas que oscilam entre o relato clínico e a prosa literária, o livro expõe as microviolências institucionais, a burocracia que adoece e a rede de solidão e resistência tecida por mulheres – as “mães bandidas” – que desafiam a lógica do Estado para proteger os seus. Portanto, um trabalho sobre a potência do cuidado como ato político e sobre o poder da escrita como instrumento de denúncia.
Estas páginas não esperam nada do leitor. Elas apenas colocam perguntas incômodas que não esperam ser respondidas, como: O que é ser “bandida” quando a lei é injusta? O que é ser “ética” quando a norma é cúmplice da morte? O que é “cuidar” quando o sistema adoece?
Aqui, você encontrará a crueza da violência obstétrica e a delicadeza de um curativo; a burocracia que abandona um homem louco à própria sorte e a rede de mães que se organiza para acobertar um filho da violência do Estado; o poder de um laudo que sentencia e a rebeldia de uma pergunta que silencia uma sala.
Este livro é, acima de tudo, um tributo. Às mulheres, Às mães bandidas, essas “boladonas” que enfrentam o poder. Aos corpos in-mundos, que a escrita acadêmica tanto apaga. À enfermeira rebelde que habita em mim e em tantas. E à escrita como último recurso de cuidado – palavra que pode, sim, ser um instrumento de libertação e liberação.

