AVANÇOS MOLECULARES NO HIPERALDOSTERONISMO PRIMÁRIO E SEU IMPACTO NA SAÚDE PÚBLICA CARDIOVASCULAR
DOI:
https://doi.org/10.47879/ed.ep.20260415p718Palavras-chave:
Hiperaldosteronismo primário, Aldosterona, Renina, Mutações somáticas, Hipertensão arterial, Zona glomerulosaResumo
A compreensão do hiperaldosteronismo primário (HAP) passou por uma grande transformação nas últimas décadas, deixando de ser considerada um interesse médico ocasional para se consolidar como uma síndrome comum que afeta entre 5% a 10% da população hipertensa geral e até 20% dos casos resistentes. Este novo paradigma revela que a maioria dos pacientes é “normocalêmica”, o que invalida o critério histórico da hipocalemia para o rastreio e reforça um risco cardiovascular e renal desproporcional, superando os danos conferidos pela hipertensão essencial com níveis pressóricos equivalentes. No centro desta revolução biológica está a descoberta de mutações somáticas em genes de canais iónicos e bombas de transporte (como KCNJ5, ATP1A1 e CACNA1D), que promovem a despolarização crônica da membrana celular na zona glomerulosa e ativam a aldosterona sintase de forma autônoma. Adicionalmente, a identificação de aglomerados de células produtoras de aldosterona (APCCs) sugere que a doença adrenal é um contínuo de alterações moleculares, desafiando a visão binária tradicional entre adenomas unilaterais e hiperplasia bilateral. Clinicamente, a aldosterona em excesso atua como um veneno metabólico sistêmico, exercendo efeitos pró-inflamatórios e pró-fibróticos diretos, que resultam em remodelamento cardíaco adverso e danos vasculares independentes da pressão arterial. A triagem baseada na relação aldosterona-renina (ARR) permanece como a base do diagnóstico, embora exija um rigoroso manejo de interferências farmacológicas e a normalização eletrolítica para evitar falsos-negativos. A falha da tomografia computadorizada (TC) em diferenciar nódulos secretores de incidentalomas inativos em pacientes acima dos 40 anos consolidou o cateterismo de veias adrenais (AVA) como referência funcional indispensável para guiar decisões cirúrgicas. Enquanto a adrenalectomia laparoscópica oferece taxas de cura bioquímica superiores a 90%, o tratamento evolui para o uso de antagonistas mineralocorticoides (MRAs) e a introdução de novos inibidores da aldosterona sintase (ASIs), como o baxdrostat, que prometem uma medicina de precisão capaz de silenciar a produção hormonal na sua origem.

