MIOCARDITE: DA RESPOSTA IMUNOINFLAMATÓRIA À ESTRATIFICAÇÃO DIAGNÓSTICA E AO MANEJO CLÍNICO ATUAL
DOI:
https://doi.org/10.47879/ed.ep.20260453p1286Palavras-chave:
Miocardite, Inflamação miocárdica, Ressonância magnética cardíaca, Biópsia endomiocárdica, Insuficiência cardíacaResumo
A miocardite representa uma síndrome inflamatória do miocárdio marcada por grande heterogeneidade etiológica, clínica e prognóstica, o que explica sua posição de destaque entre os temas mais desafiadores da cardiologia contemporânea. Longe de se restringir ao cenário clássico de paciente jovem com dor torácica, troponina elevada e coronárias sem lesões obstrutivas, sua apresentação pode variar desde quadros discretos e autolimitados até formas fulminantes com choque cardiogênico, arritmias malignas, bloqueios de condução e rápida deterioração hemodinâmica. Essa variabilidade exige abordagem diagnóstica cuidadosa, capaz de integrar suspeita clínica, biomarcadores, imagem e, em contextos selecionados, avaliação histológica.
Do ponto de vista fisiopatológico, a miocardite pode resultar de infecções virais, mecanismos autoimunes, hipersensibilidade medicamentosa, toxicidade direta, doenças sistêmicas inflamatórias ou combinações entre agressão infecciosa e resposta imune desregulada. A lesão miocárdica pode decorrer tanto do agente inicial quanto da resposta inflamatória subsequente, o que ajuda a explicar a amplitude do espectro clínico e a possibilidade de evolução para recuperação completa, disfunção ventricular persistente, cardiomiopatia dilatada inflamatória ou morte súbita.
Nas últimas décadas, a ressonância magnética cardíaca consolidou-se como ferramenta central na avaliação não invasiva da inflamação miocárdica, ao passo que a biópsia endomiocárdica permaneceu como método decisivo em casos graves, atípicos ou com potencial de mudança terapêutica relevante. Paralelamente, o manejo da miocardite deixou de ser limitado ao suporte clínico inespecífico e passou a incorporar melhor estratificação de risco, monitorização arrítmica, restrição temporária ao exercício e, em situações selecionadas, terapias imunomoduladoras ou suporte circulatório avançado. Este capítulo revisa os principais mecanismos fisiopatológicos, a apresentação clínica, os métodos diagnósticos e as estratégias atuais de manejo da miocardite, com ênfase na aplicabilidade prática e na estratificação de gravidade.

