DOENÇAS DO PERICÁRDIO: DA INFLAMAÇÃO AGUDA À FISIOPATOLOGIA DAS FORMAS CONSTRITIVAS E RECORRENTES
DOI:
https://doi.org/10.47879/ed.ep.20260453p1272Palavras-chave:
Pericárdio, Pericardite, Derrame pericárdico, Tamponamento cardíaco, Pericardite constritivaResumo
As doenças do pericárdio ocupam posição singular na prática cardiovascular por reunirem apresentações clínicas heterogêneas, mecanismos fisiopatológicos distintos e amplitude prognóstica que varia desde quadros autolimitados de pericardite aguda até formas constritivas crônicas com repercussão hemodinâmica importante. Embora muitas vezes sejam tratadas como território periférico dentro da cardiologia, as síndromes pericárdicas exigem raciocínio clínico refinado, sobretudo porque dor torácica, derrame pericárdico, febre, congestão venosa sistêmica e sinais de restrição diastólica podem surgir em diferentes combinações e com significados muito distintos conforme o processo subjacente.
Do ponto de vista fisiopatológico, o pericárdio deixa de atuar apenas como estrutura de contenção anatômica e passa a funcionar como elemento central da interação entre enchimento cardíaco, interdependência ventricular e resposta inflamatória local. Processos infecciosos, autoimunes, neoplásicos, metabólicos, pós-cirúrgicos, pós-radiação e idiopáticos podem comprometer tanto os folhetos pericárdicos quanto o espaço entre eles, produzindo dor, derrame, tamponamento, recorrência inflamatória ou espessamento fibrótico progressivo. Em fases avançadas, a perda da complacência pericárdica converte o pericárdio em estrutura rígida, capaz de limitar o enchimento ventricular e gerar síndrome predominantemente congestiva.
A evolução recente da imagem cardiovascular, especialmente ecocardiografia, tomografia computadorizada, ressonância magnética cardíaca e, em contextos selecionados, técnicas voltadas à atividade inflamatória, ampliou substancialmente a capacidade de diferenciar doença inflamatória ativa de formas crônicas fibróticas e de identificar pacientes em maior risco. Em paralelo, novas abordagens terapêuticas, incluindo o reposicionamento da colchicina como pilar do tratamento inicial e o avanço do bloqueio da interleucina 1 nas formas recorrentes, modificaram o manejo contemporâneo. Este capítulo revisa os fundamentos fisiopatológicos, as formas de apresentação clínica e as estratégias atuais de diagnóstico e tratamento das doenças pericárdicas, com ênfase na aplicabilidade clínica e na distinção entre processos agudos, recorrentes e constritivos.

