VALVA AÓRTICA BICÚSPIDE: FENOTIPAGEM ANATÔMICA, PROGRESSÃO VALVAR E RISCO AÓRTICO ASSOCIADO
DOI:
https://doi.org/10.47879/ed.ep.20260453p1299Palavras-chave:
Valva aórtica bicúspide, Aortopatia, Estenose aórtica, Insuficiência aórtica, Aorta ascendenteResumo
A valva aórtica bicúspide é a anomalia congênita valvar mais frequente da prática cardiovascular e apresenta grande heterogeneidade anatômica, funcional e evolutiva. Sua relevância clínica vai muito além da constatação morfológica de uma valva com duas cúspides funcionais. Ao longo do tempo, pode associar-se a estenose aórtica precoce, insuficiência aórtica, endocardite infecciosa e dilatação da aorta proximal em graus variáveis. Por isso, deixou de ser interpretada como simples anomalia anatômica isolada e passou a ser entendida como síndrome valvo-aórtica, conceito que reorganiza a forma de acompanhar, estratificar e tratar esses pacientes.
A expressão clínica é extremamente variável. Alguns indivíduos permanecem assintomáticos por décadas e têm o diagnóstico feito de maneira incidental, durante a investigação de um sopro ou a realização de ecocardiograma por outro motivo. Outros evoluem com calcificação acelerada, estenose valvar em idade mais precoce do que a observada na degeneração tricúspide habitual, insuficiência aórtica importante ou aortopatia progressiva. A mesma alteração de base, portanto, pode produzir trajetórias clínicas muito diferentes, o que exige acompanhamento longitudinal e individualizado.
Essa diversidade decorre da interação entre anatomia cuspídea, padrão de fluxo transvalvar, estresse hemodinâmico e possível vulnerabilidade intrínseca da parede aórtica. Em termos práticos, isso significa que o paciente com valva aórtica bicúspide não deve ser seguido apenas pelo grau de valvopatia.
É preciso compreender também a morfologia da fusão cuspídea, o segmento da aorta acometido, a velocidade de progressão da dilatação e o contexto familiar. Este capítulo revisa os fundamentos anatômicos, fisiopatológicos e clínicos da valva aórtica bicúspide, com ênfase na progressão valvar, no risco aórtico associado e nas estratégias contemporâneas de seguimento e tomada de decisão.

